Carta para o meu futuro
Na manhã do dia 10 de dezembro de 2037 acordarei de um sonho com o imponderável. Pode ser que a ação se passe na Europa, em território vasto onde outrora habitavam os povos bárbaros, à direita do rio Reno, a poucas semanas da chegada do inverno; pode ser que aconteça na Rua Bambina, 98, a algumas quadras daqui, no Rio de Janeiro em que terei nascido 51 anos antes.
Seja como for, este sonho será o mesmo que me ocorreu precisamente ontem à noite. Porém disso não me lembrarei; será, no futuro, um sonho inédito, como o são todas as manhãs sem sol.
É provável que meus então 52 anos incompletos nunca deixem de ser os dez meses de uma criança. Em meu apartamento notarei uma prega evidente em minha fronte, mas nada que altere radicalmente a configuração de meu rosto. Esta sou eu, esta serei eu (nothing’s gonna change...).
No mesmo dia tocarei a mão de um homem envelhecido não pelos anos, mas pelas mágoas, o qual não mais reconhecerei, exceto neste sonho duplicado e único. Calar-me-ei diante deste futuro incorrigível e me limitarei a viver. Não sentirei culpa pelo amor fracassado.
*
Nossa gramática é falha; falta-lhe um tempo verbal que abranja simultaneamente o futuro e o passado, numa conjugação coerente e completa. Creio que as línguas orientais sejam mais precisas em sua representação vã do tempo; suas limitações (“passado” e “não-passado”) são a maior prova de sua complexidade.
Agora eu respiro fundo e sinto que já estou vivendo, hoje, esse dia distante do futuro. Tudo já aconteceu e nada faço além de relatar nesta carta o tempo que passou.
Não é absurdo acreditar que novas imagens estão no porvir, tão inéditas quanto o meu sonho. Aguardo-as e anseio por elas. A Deus não peço grandes emoções; estas constarão em minha obra e em meu testamento.
Ficarei satisfeita se ainda estiver viva.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Natal
uma estrela brilha no céu,
ofuscante ela pende
efêmera e eterna
sobre todas as coisas.
uma voz silencia na terra,
solitária ela atravessa
muda e vibrante
as camadas do tempo.
em noite de nascimento,
a mãe chora em segredo
o vazio de um berço.
eu ouço a voz na estrela,
tão clara quanto o astro
em meio a toda escuridão.
uma estrela brilha no céu,
ofuscante ela pende
efêmera e eterna
sobre todas as coisas.
uma voz silencia na terra,
solitária ela atravessa
muda e vibrante
as camadas do tempo.
em noite de nascimento,
a mãe chora em segredo
o vazio de um berço.
eu ouço a voz na estrela,
tão clara quanto o astro
em meio a toda escuridão.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
esta página não é um diário.
não serve, como os documentos históricos, para registrar alguma coisa do passado, para ser lido daqui a algum futuro.
não serve, como os documentos históricos, para registrar alguma coisa do passado, para ser lido daqui a algum futuro.
que importa se hoje sofri com tua ausência, se Borges me quebrou, se os colegas de trabalho me compreenderam mal?
deixa-me esquecer isso amanhã.
dispenso os diários por uma razão muito simples, porém inexplicável: todo tempo é hoje.
deixa-me esquecer isso amanhã.
dispenso os diários por uma razão muito simples, porém inexplicável: todo tempo é hoje.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
À Mãe Eterna
Eres nube, eres mar, eres olvido
Eres también aquellos que has perdido
Jorge Luis Borges
quando nossa criança partiu
choveu três dias sem fim
a cidade se alagou de pranto
e a dor invadiu todas as almas
eu me recolhi dentro do quarto
acendi uma vela antes de dormir
e apenas silenciei dentro de mim
chorando por você e orando por ela
de manhã, visitei o Jardim dos Mortos
colhi das flores a mais bela
lamentando não ser primavera
e navegamos em busca da paz mais profunda
que os ventos a levassem para novos espaços
que as ondas se encarregassem de seu novo destino
********
Minha irmã — a mais bonita,
quando os sinos das igrejas se calarem
e ficar escuro dentro de nós
lembre-se de que você nos deu a luz
foi como um milagre
a noite em que você nos trouxe a vida
pois vi o amor surgir no mundo
e chorei por tamanha beleza
quando nasceu o novo dia,
seu corpo falou a língua das mães
e toda sabedoria que jamais existiu
habitava a pequena Sofia
Minha irmã — a mais bonita,
eu sempre vivi à beira do Adeus
mas aquele dia me senti pequena
e quis pela primeira vez enraizar.
********
Onde está ela?
os seus filhos são meus filhos
as suas dores são dores minhas
e eu nunca poderei recompensar a alegria
que você nos deu aquele dia
********
Onde está ela?
Enquanto houver nossa família
onde quer que jorre nosso sangue
sempre que caminharmos juntos
entre nós há de estar ela
Uma criança não abandona
quem a concebeu dentro de si
Nos frutos amazônicos e nos animais andinos
nas virtudes cardinais, na centelha divina
em tudo o que é vivo ela reside
Seu espírito viaja com as águas
nas noites dentro do mar
e quando adormeço sob a metrópole,
ela preenche as profundezas mais turvas
e renasce nos sonhos mais tranquilos
********
A criança não voltará esta noite.
(Existirá tristeza maior no mundo
que a dor de um berço vazio?)
Um pedaço de nós, o mais sábio deles, se foi;
Quando estaremos juntos novamente?
********
A criança não voltará esta noite.
Mas as águas já não caem do céu
A cidade não chora mais
O chão que pisamos está seco
Já é primavera.
Neste novo começo,
meu silêncio há de lhe trazer paz
meu suspiro há de fazê-la voar
até o dia em que os pássaros
voltarem a cantar
********
As crianças são tristes mas conhecem a Verdade
assim elas podem ser tristes.
Eis a sua verdade:
Quem vive está morrendo um pouco,
Quem morre nos deixa a vida.
Eres nube, eres mar, eres olvido
Eres también aquellos que has perdido
Jorge Luis Borges
quando nossa criança partiu
choveu três dias sem fim
a cidade se alagou de pranto
e a dor invadiu todas as almas
eu me recolhi dentro do quarto
acendi uma vela antes de dormir
e apenas silenciei dentro de mim
chorando por você e orando por ela
de manhã, visitei o Jardim dos Mortos
colhi das flores a mais bela
lamentando não ser primavera
e navegamos em busca da paz mais profunda
que os ventos a levassem para novos espaços
que as ondas se encarregassem de seu novo destino
********
Minha irmã — a mais bonita,
quando os sinos das igrejas se calarem
e ficar escuro dentro de nós
lembre-se de que você nos deu a luz
foi como um milagre
a noite em que você nos trouxe a vida
pois vi o amor surgir no mundo
e chorei por tamanha beleza
quando nasceu o novo dia,
seu corpo falou a língua das mães
e toda sabedoria que jamais existiu
habitava a pequena Sofia
Minha irmã — a mais bonita,
eu sempre vivi à beira do Adeus
mas aquele dia me senti pequena
e quis pela primeira vez enraizar.
********
Onde está ela?
os seus filhos são meus filhos
as suas dores são dores minhas
e eu nunca poderei recompensar a alegria
que você nos deu aquele dia
********
Onde está ela?
Enquanto houver nossa família
onde quer que jorre nosso sangue
sempre que caminharmos juntos
entre nós há de estar ela
Uma criança não abandona
quem a concebeu dentro de si
Nos frutos amazônicos e nos animais andinos
nas virtudes cardinais, na centelha divina
em tudo o que é vivo ela reside
Seu espírito viaja com as águas
nas noites dentro do mar
e quando adormeço sob a metrópole,
ela preenche as profundezas mais turvas
e renasce nos sonhos mais tranquilos
********
A criança não voltará esta noite.
(Existirá tristeza maior no mundo
que a dor de um berço vazio?)
Um pedaço de nós, o mais sábio deles, se foi;
Quando estaremos juntos novamente?
********
A criança não voltará esta noite.
Mas as águas já não caem do céu
A cidade não chora mais
O chão que pisamos está seco
Já é primavera.
Neste novo começo,
meu silêncio há de lhe trazer paz
meu suspiro há de fazê-la voar
até o dia em que os pássaros
voltarem a cantar
********
As crianças são tristes mas conhecem a Verdade
assim elas podem ser tristes.
Eis a sua verdade:
Quem vive está morrendo um pouco,
Quem morre nos deixa a vida.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Castelos
Teus olhos que se fecharam
brilham ainda negros
Em algum lugar ecoa tua última palavra: a primeira que ouvi de ti.
E tua imagem, se em outro tempo se perdeu
reluta em deixar este presente.
Teus olhos, tuas palavras, tua imagem
De alguma forma eu preciso dar-lhes a vida
Eu preciso erguer castelos
com o que me sobrou
Teus olhos que se fecharam
brilham ainda negros
dentro de mim.
Em algum lugar ecoa tua última palavra: a primeira que ouvi de ti.
E tua imagem, se em outro tempo se perdeu
reluta em deixar este presente.
Teus olhos, tuas palavras, tua imagem
De alguma forma eu preciso dar-lhes a vida
que já não tens.
Eu preciso erguer castelos
com o que me sobrou
domingo, 15 de novembro de 2009
Não envelheceriam juntos. O pensamento lhe ocorreu no domingo de manhã. A hora em que a noite se retirava e só lhe restava a vida.
A hora da ausência.
No aterro, o sol batia nas pedras e nas águas e transformava tudo em verão, apesar de ser agosto. Ao chegar à Urca, o morro lhe pareceu um tanto achatado, quase uma pintura naturalista. Por muitos anos aquele lugar não passou de um cenário para o espetáculo banal de sua vida. E, atrás dele, não havia nada escondido. Nada a ser descoberto.
Uma cidade sempre fica mais bonita na hora do Adeus, pensou.
Principalmente esta. O balneário onde nasci.
O derradeiro Rio de Janeiro.
Tudo o que era eterno lhe trazia apenas angústia. Da mesma forma a certeza da morte. Tinha horror ao dia a dia, mas não suportava a ideia de ter que se reinventar constantemente. Sofria por saber que não conseguiria chorar o fim.
A hora da ausência.
No aterro, o sol batia nas pedras e nas águas e transformava tudo em verão, apesar de ser agosto. Ao chegar à Urca, o morro lhe pareceu um tanto achatado, quase uma pintura naturalista. Por muitos anos aquele lugar não passou de um cenário para o espetáculo banal de sua vida. E, atrás dele, não havia nada escondido. Nada a ser descoberto.
Uma cidade sempre fica mais bonita na hora do Adeus, pensou.
Principalmente esta. O balneário onde nasci.
O derradeiro Rio de Janeiro.
Tudo o que era eterno lhe trazia apenas angústia. Da mesma forma a certeza da morte. Tinha horror ao dia a dia, mas não suportava a ideia de ter que se reinventar constantemente. Sofria por saber que não conseguiria chorar o fim.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Em 14.02.2003 postei no meu antigo blog essa passagem de "O Colecionador", de John Fowles, um dos livros que fizeram minha cabeça na juventude. Não sei se hoje, relendo o livro, ainda gostaria dele tanto quanto antes. Mas continuo concordando com tudo.
"(..) tudo isto é conversa. É muito provável que venha a conhecer um homem por quem me apaixone, que me case, que tenha filhos, e que tudo mude tanto que nunca mais me preocuparei com estas coisas. Passarei a ser uma Mulher Pequena. Irei para o campo inimigo.
No entanto, é isto que eu penso atualmente. Pertenço a um grupo de pessoas que tem de lutar contra todo o resto. Não sei ao certo quem compõe o grupo - homens famosos, vivos ou mortos, que lutaram pelas causas justas, que criaram e pintaram com arte e carinho, e as pessoas não famosas que não mentem, que tentam não ser preguiçosas, que procuram ser humanas e inteligentes (...) Não precisam ser boas pessoas. Todas elas têm momentos de fraqueza. Momentos de sexo e álcool. Momentos covardes e momentos de ambição financeira. Alguns pensam mesmo em matar-se. Mas uma parte, uma boa parte do grupo, está de corpo e alma com o movimento.
Os poucos."
"(..) tudo isto é conversa. É muito provável que venha a conhecer um homem por quem me apaixone, que me case, que tenha filhos, e que tudo mude tanto que nunca mais me preocuparei com estas coisas. Passarei a ser uma Mulher Pequena. Irei para o campo inimigo.
No entanto, é isto que eu penso atualmente. Pertenço a um grupo de pessoas que tem de lutar contra todo o resto. Não sei ao certo quem compõe o grupo - homens famosos, vivos ou mortos, que lutaram pelas causas justas, que criaram e pintaram com arte e carinho, e as pessoas não famosas que não mentem, que tentam não ser preguiçosas, que procuram ser humanas e inteligentes (...) Não precisam ser boas pessoas. Todas elas têm momentos de fraqueza. Momentos de sexo e álcool. Momentos covardes e momentos de ambição financeira. Alguns pensam mesmo em matar-se. Mas uma parte, uma boa parte do grupo, está de corpo e alma com o movimento.
Os poucos."
terça-feira, 10 de novembro de 2009
sonho das gerações
um dia eu sonhei com aqueles que estavam se despedindo
e sonhei com aqueles que haviam recém-chegado
como eram íntimos uns dos outros
e eram igualmente belos
apenas por estarem vivos
um dia despertei do sonho das gerações
e os que estavam se despedindo
continuavam ensaiando o Adeus
e aqueles que, recém-chegados,
prometiam uma longa estadia
estes haviam partido.
nunca entenderei
por que o tempo os traiu
queria apenas
adormecer com eles
um dia eu sonhei com aqueles que estavam se despedindo
e sonhei com aqueles que haviam recém-chegado
como eram íntimos uns dos outros
e eram igualmente belos
apenas por estarem vivos
um dia despertei do sonho das gerações
e os que estavam se despedindo
continuavam ensaiando o Adeus
e aqueles que, recém-chegados,
prometiam uma longa estadia
estes haviam partido.
nunca entenderei
por que o tempo os traiu
queria apenas
adormecer com eles
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
poema ao avô
a bordo de um navio
das lembranças de menino
chegaste à nossa terra
onde conheces a velhice
presente de um marujo,
teu sangue estrangeiro
cruzou o oceano
para fazer netos e filhos
quantas décadas vividas
até chorares o reencontro
nas imagens da infância
(a vila abandonada
a escola vazia
as oliveiras e as uvas)
teus olhos enchem-se de saudade
ao lembrar a travessia
os meus igualmente. eternamente,
eu queria manter vivos eternamente
os sentimentos de nossa família.
a bordo de um navio
das lembranças de menino
chegaste à nossa terra
onde conheces a velhice
presente de um marujo,
teu sangue estrangeiro
cruzou o oceano
para fazer netos e filhos
quantas décadas vividas
até chorares o reencontro
nas imagens da infância
(a vila abandonada
a escola vazia
as oliveiras e as uvas)
teus olhos enchem-se de saudade
ao lembrar a travessia
os meus igualmente. eternamente,
eu queria manter vivos eternamente
os sentimentos de nossa família.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Elegia a Sofia (Soneto do Primeiro Ano)
No dia de seu primeiro ano de vida,
na aurora da mais terna idade,
levo o coração cheio de saudade,
pois sei que não está mais viva.
Seu nome já dizia: de nós, quem mais sabia
que a primavera não dura a eternidade
era a criança — companheira da verdade,
cuja breve visita só nos deu alegria.
Sofia, enquanto houver nossa família
eu cuidarei para que você não envelheça
e pedirei que venha nos consolar.
Sua lembrança vai nos trazer calmaria
para que desta terra uma árvore cresça
e me acolha sempre que precisar.
No dia de seu primeiro ano de vida,
na aurora da mais terna idade,
levo o coração cheio de saudade,
pois sei que não está mais viva.
Seu nome já dizia: de nós, quem mais sabia
que a primavera não dura a eternidade
era a criança — companheira da verdade,
cuja breve visita só nos deu alegria.
Sofia, enquanto houver nossa família
eu cuidarei para que você não envelheça
e pedirei que venha nos consolar.
Sua lembrança vai nos trazer calmaria
para que desta terra uma árvore cresça
e me acolha sempre que precisar.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
breve poema a Laura Nyro

may your voice
live forever
inside my hearing
for whenever
your music sounds
laura, it is blessing
i see women
like you and i,
through the songs
of your broken heart
the keys of the piano
the blow of the wind
when you got the blues,
you can make them speak

may your voice
live forever
inside my hearing
for whenever
your music sounds
laura, it is blessing
i see women
like you and i,
through the songs
of your broken heart
the keys of the piano
the blow of the wind
when you got the blues,
you can make them speak
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Requiem für eine Freundin
Wenn du noch da bist, wenn in diesem Dunkel
noch eine Stelle ist, an der dein Geist
empfindlich mitschwingt auf den flachen Schallwelln,
die eine Stimme, einsam in der Nacht,
aufregt in eines hohen Zimmers Strömung:
So hör mich: Hilf mir. Sieh, wir gleiten so,
nicht wissend wann, zurück aus unserm Fortschritt
in irgendwas, was wir nicht meinen; drin
wir uns verfangen wie in einem Traum
und drin wir sterben, ohne zu erwachen.
Keiner ist weiter. Jedem, der sein Blut
hinaufhob in ein Werk, das lange wird,
kann es geschehen, daß ers nicht mehr hochhält
und daß es geht nach seiner Schwere, wertlos.
Denn irgendwo ist eine alte Feindschaft
zwischen dem Leben und der großen Arbeit.
Daß ich sie einseh und sie sage: hilf mir.
Komm nicht zurück. Wenn du´s erträgst, so sei
tot bei den Toten. Tote sind beschäftigt.
Doch hilf mir so, daß es dich nicht zerstreut,
wie mir das Fernste manchmal hilft: in mir.
Réquiem para uma amiga (última parte)
Se ainda estiveres aqui, se nesta escuridão
ainda existir um lugar no qual teu espírito
ressoa sensível sobre as rasas ondas sonoras
de uma voz isolada na noite,
vibrando na corrente do quarto:
então, ouve: Ajuda-me. Vê, nós podemos regressar,
sem saber quando, de nossos avanços,
em direção a algo que não queríamos: neste lugar
nos encurralamos como num sonho
e lá morremos, sem jamais despertar.
Ninguém está longe disto. Qualquer um
que queimou seu sangue em uma obra que perdura,
pode não mais sustentá-la, e ela pode
cair com a força da gravidade, inútil.
Pois em algum lugar há uma antiga hostilidade
entre a vida e a grande obra.
Ajuda-me para que eu a veja e a reconheça.
Não voltes. Se resistires, continua
morta entre os mortos. Mortos estão ocupados.
Mas ajuda-me sem te dispersares,
assim como a mim por vezes o que está mais longe ajuda: em mim.
Rilke, Rainer Maria. Requiem für eine Freundin, 31.10.-3.11.1908, Paris
Wenn du noch da bist, wenn in diesem Dunkel
noch eine Stelle ist, an der dein Geist
empfindlich mitschwingt auf den flachen Schallwelln,
die eine Stimme, einsam in der Nacht,
aufregt in eines hohen Zimmers Strömung:
So hör mich: Hilf mir. Sieh, wir gleiten so,
nicht wissend wann, zurück aus unserm Fortschritt
in irgendwas, was wir nicht meinen; drin
wir uns verfangen wie in einem Traum
und drin wir sterben, ohne zu erwachen.
Keiner ist weiter. Jedem, der sein Blut
hinaufhob in ein Werk, das lange wird,
kann es geschehen, daß ers nicht mehr hochhält
und daß es geht nach seiner Schwere, wertlos.
Denn irgendwo ist eine alte Feindschaft
zwischen dem Leben und der großen Arbeit.
Daß ich sie einseh und sie sage: hilf mir.
Komm nicht zurück. Wenn du´s erträgst, so sei
tot bei den Toten. Tote sind beschäftigt.
Doch hilf mir so, daß es dich nicht zerstreut,
wie mir das Fernste manchmal hilft: in mir.
Réquiem para uma amiga (última parte)
Se ainda estiveres aqui, se nesta escuridão
ainda existir um lugar no qual teu espírito
ressoa sensível sobre as rasas ondas sonoras
de uma voz isolada na noite,
vibrando na corrente do quarto:
então, ouve: Ajuda-me. Vê, nós podemos regressar,
sem saber quando, de nossos avanços,
em direção a algo que não queríamos: neste lugar
nos encurralamos como num sonho
e lá morremos, sem jamais despertar.
Ninguém está longe disto. Qualquer um
que queimou seu sangue em uma obra que perdura,
pode não mais sustentá-la, e ela pode
cair com a força da gravidade, inútil.
Pois em algum lugar há uma antiga hostilidade
entre a vida e a grande obra.
Ajuda-me para que eu a veja e a reconheça.
Não voltes. Se resistires, continua
morta entre os mortos. Mortos estão ocupados.
Mas ajuda-me sem te dispersares,
assim como a mim por vezes o que está mais longe ajuda: em mim.
Rilke, Rainer Maria. Requiem für eine Freundin, 31.10.-3.11.1908, Paris
terça-feira, 6 de outubro de 2009
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